Parei hoje em frente ao espelho. Não me reconheci nos olhos baços e no cabelo despenteado pelo cansaço do tempo. A verdade é que me sinto mais vazia que o jarro de vidro que só vai à mesa na noite de consoada. Verdade. Aquele jarro de asa torneada e vidro luzidio que fica pousado no louceiro com um pano bordado por cima. Sou eu. Não tenho asas nem sou transparente, mas tenho vontade de me trancar no mesmo armário em que está arrumado. Os copos de cristal e as chávenas pintadas à mão também lá estão. Esperam vazios pelo próximo aniversário ou festa de calendário para se encherem a si e aos outros que os levantam no ar. Só nessas ocasiões é que se lembram de os por na mesa, com a cerimónia estampada nos sorrisos amarelos pelas casacas cortadas que todos orgulhosamente vestem sem saber. Eu lembrei-me deles hoje. Em frente ao espelho e agora. Não quero herdá-los mas também não quero que se partam. Sou como eles e eles como eu. V-a-z-i-o-s.
Diz-me se queres que fique sempre inverno ou se, como eu, esperas os dias em que o céu é azul de um lado ao outro de si mesmo e o mar se estende nas rochas com a leveza de uma bailarina graciosa.
É cada vez mais difícil esconder o calor num dia de frio.
Disfarça-se menos e sente-se cada vez mais.
Tenho pena de nós, por mim e por ti.
O significado das coisas não se percebe quando se tem medo de as perceber. Se eu vestisse o medo com algum trapo, vesti-lo-ia de amarelo canário. Presença forte que não se deixa esconder. Não pia, mas grita-me ao ouvido e puxa-me os cabelos quando deixo fugir o pensamento para aquele lugar obscuro que tento ocultar. Dá umas gargalhadas, em tom menor, que me lembram os acordes saídos de um piano de cauda em staccato. Eu corro de braços cruzados e joelhos metidos para dentro. Vou olhando as ruas e as janelas das casas para te encontrar. Sim. Sou medrosa... Talvez por isso não percebo porque é que te vestes de amarelo canário.
Perdi o caminho para casa ao tentar esconder-me da luz do sol.
Não gritei mais alto que o silêncio para não afugentar os pássaros que me seguiam.
Trinta vezes a certeza de que estou perdida e cinquenta pingos de suor sobre uma testa franzida de susto.
Sigo com o vento que me empurra para o nada que os olhos reconhecem.
Não espero ir para lugar algum.
Daqui a pouco anoitece e as caras não se conseguem ver.


Vou contando as vezes que páro para me tentar lembrar do que penso ter esquecido. Perco um dia inteiro a juntar o que já vi e que sei de cor enquanto devoro a agonia de ver repetido o que não queria repetir. O empurrão para a claustrofobia de um abraço apertado que se desfaz com a rapidez do tempo. Volto ao mesmo lugar onde estive ontem e percorro o caminho da culpa de não ter esperado mais um minuto. Ontem tive pressa de fugir. Hoje eu gostava de ficar, com os olhos abertos e de braços abertos à tua espera. Mas não fico.
I'm going away, forever,
I'm going away, forever,
Never coming back this way,
Never coming back to this place.
What I need is a heaven,
What I really need is a heaven,
A place to go where I can really be,
A place to go where I can really be
Where I can really be.
Dreaming my life away, counts for nothing,
Dreaming my life away, counts for nothing,
But nothing ever is the end,
No, nothing ever is the end.
It's sure been a full life for me, yeah
It's sure been a full life for me, yeah
It's sure been a full life for me, baby, its sure been a full life for me.

JF
Chove torrencialmente. A mesa de tampo escuro encosta um dos seus quatro cantos à parede sem tinta naquele ponto onde se encontram. Tenho a cara na palma da mão esquerda e o cotovelo sobre um monte de papéis rabiscados. Consigo ver-me no espelho de moldura dourada e reflexos acinzentados que parece descolar-se da parede com a determinação de quem procura um precipício para saltar. Vejo-me a mim e ao homem do café. Tem o cabelo luzidio e puxado para trás com a força da língua de um gato. Não nega a idade que tem. Há nele qualquer coisa de cigano. Talvez a tez escura e o olhar profundo. Enxuga os copos com movimentos que se repetem na esfera que o encerra. Parece viver dentro de uma bolha de ar suficientemente transparente para se deixar ver. Já escrevi a mesma frase umas várias vezes dentro de outras tantas linhas. Consigo dizê-la sem olhar para o papel e a cantar. Sim. Mais um copo por favor. Desta vez cheio até ao seu rebordo. É o que preciso para afinar a voz antes que o café feche e o cigarro aconchegado no canto da boca do senhor do bar se apague. Sem dúvida.